quarta-feira, 28 de abril de 2010

Histórias Reais! (Inclusive A Minha)


É extremamente complicado explicar o quanto tenho aprendido nesses meses de escola aqui no Avalanche. Muito dos processos pelo qual eu passei em minha vida, não entendia o propósito até vir pra cá. Não há um dia sequer em que não somos confrontados em algo. Seja durante a aula. Seja numa discussão filosófica. Seja lavando louça. Seja acordando ou dormindo. Mas até o fato de estar crescendo em conhecimento aqui, me foi confrontado alguns dias atrás.

Sexta-Feira a noite é quando normalmente acontece o evangelismo de rua. Confesso que na maioria das vezes saio bem desanimado da base. Aliás, não necessariamente desanimado. Mas depois de uma semana tensa e intensa de aulas, debates e práticos, chegando final de semana estamos bem desgastados. Como normalmente vamos pra cracolândia daqui de Vitória, muitas vezes conversamos a noite inteira com os “nóias” da rua, sabendo que, pela manhã, eles nem se lembrarão que esse momento aconteceu.

Mas particularmente nesse dia, antes de sair, orei de forma extremamente sincera para com Deus. Pra que eu pudesse,pelo menos sentir no meu coração, que algo efetivo foi feito pela vida das pessoas que conversássemos.

Ganhamos a noite. A medida que fomos chegando no lugar, o grupo foi se dividindo tentando trocar uma idéia com os viciados, moradores de rua, prostitutas… pessoas em geral. Um dos responsáveis me apontou um grupo de umas quatro pessoas e me disse que eram os traficantes do lugar. Me perguntou se eu gostaria de ir lá conversar com eles. Não pensei duas vezes. Poderia conversar com uma pessoa “lúcida”, apesar de não saber exatamente como chegar nela e sobre o que conversar. Fomos eu e mais duas pessoas. Havia um bar aberto logo em frente e as pessoas começaram a nos olhar diferente, pois sabiam que não éramos daquela região. With, um amigo meu sentou-se em alguns degraus ao lado do bar e começou a puxar papo com uma menina e um rapaz que estavam no local. Eu e a Chrys, do Manifesto Missoes Urbanas de Uberlandia, atravessamos a rua para falar com o dono da “boca”. Como percebi que algumas pessoas da rua com quem já tínhamos algum contato não estavam nos seus lugares habituais, usei isso como desculpa para perguntar ao traficante se tinha acontecido algo por ali e onde o pessoal tava concentrado naquela noite. A conversa se desenvolveu mais ou menos assim:

Traficante: O que vocês querem?
Nós: Nada. Só queremos trocar idéia.
Traficante: Vocês não tem medo de ser roubado?
Nós: Não. Estamos de boa.
Traficante: Ahhh… vocês são de Jesus, neh?
Nós: Isso mesmo. Os crentes incomodam muito por aqui?
Traficante: Não não. Muito pelo contrário. Quem enche o saco são os macumbeiros.

A partir daí a conversa fluiu bem entre uma venda e outra de pó e pedra (e não foram poucas). A policia passava toda hora, pois havia acontecido ALGUNS homicídios na região. Até virei para minha amiga e já avisei pra ela se preparar pra tomar “geral dos homi”, o que graças a Deus não aconteceu.

Mas voltando a conversa com o traficante, seu nome é J. e ele tem 28 anos. Nos contou que estava naquele ponto há cinco anos e mostrou mais três outros traficantes. Entre eles a menina (adolescente) que estava conversando com meu amigo. Foi contando que ali eram sempre 4 pessoas que ficavam, mas havia uma grande rotatividade. Ele era o único que havia conseguido permanecer por tanto tempo. Normalmente os outros traficantes eram assassinados ou simplesmente sumiam do mapa. Ele realmente parecia ser um cara extremamente articulado por ali. Todos o conheciam e tinha clientes fiéis de todas as classes sociais.

Perguntei se ele já havia sido cristão. Logo me respondeu que “AINDA não”. Questionei o “ainda” e ele me disse que era macumbeiro havia muitos anos. Mas ele sabia que Deus não gostava disso. Perguntei se Deus já havia falado alguma coisa com ele e a resposta foi afirmativa. Parecia que ele e Deus eram bem íntimos. Essa era nossa sensação. Como um Pai cuidando e tentando ensinar um filho rebelde e teimoso.

Começou a nos contar que muita gente pede pra leva-los ao terreiro que ele freqüenta, mas ele sempre diz o seguinte: “Quer ir no terreiro de verdade. É só entrar naquele ‘terreiro’ da Assembléia de Deus. Lá você vai encontrar algo verdadeiro.” E apontou o portão do lado do bar. Disse que tinha medo de Deus pesar a mão sobre ele por levar pessoas ao terreiro e que nessa história já havia ajudado muita gente a se converter. “Tenho um crédito com Deus. Já encaminhei algumas almas pra Ele”. Na hora lembrei de Constantino, não sei porque (risos).

Depois de um bom tempo de conversa, principalmente sobre Deus, sempre interrompida pelos outros traficantes ou viciados, fomos embora. Descobri que os outros três traficantes já haviam sido cristãos. Inclusive um deles pediu, com lágrima nos olhos, que não o esquecêssemos. Quando meu amigo orou por ele, na rua mesmo, as lágrimas rolaram soltas. A menina havia sido criada em uma igreja histórica, mas cuidava do caixa do tráfico, ao lado da instituição, desde muito pequena. Já aos 14 anos era a gerente da “boca”.

Depois que nos despedimos deles, ainda conversamos e nos relacionamos com várias outras pessoas. Muitas histórias. Filha compartilhando o cachimbo da pedra com a mãe. Mãe se prostituindo, literalmente, na frente do filho. Histórias reais de pessoas reais. Pudemos compartilhar um pouco do Amor de Deus com cada um.

Mas o que realmente ficou marcado em mim é que todo o conhecimento de Deus, de sua palavra, de sua vida, todo aprendizado adquirido, não, necessariamente, faz de mim alguém melhor. Não foram poucas vezes em que fui evangelizado pela pessoa que eu estava evangelizando.

Em Provérbios 1:20, diz que a Sabedoria clama em alta voz nas ruas e nas praças. Qualquer pessoa que trabalhe com o dito terceiro setor, sabe muito bem disso. Mas se você continuar lendo os versículos seguintes, verá as conseqüências de simplesmente acumular sabedoria em vez de colocá-la em prática, PRIMEIRAMENTE, em sua própria vida.

Essa tem sido minha luta particular. Viver aquilo que tenho aprendido. Deus tem gritado nos meus ouvidos, mas Ele não me força tomar atitude nenhuma. Esse papel é totalmente meu.

Cristo nos chamou a fazer discípulos. E os discípulos só serão saudáveis, se o discipulador for saudável.

Coloquei no meu coração de visitar J. toda semana e estar sempre orando por ele. Quero, realmente, ter a oportunidade de contar uma nova história sobre a sua vida. Mas sei que o processo dele, começa no meu.

Que possamos ser testemunhas verdadeiras de um verdadeiro Reino de Amor.

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.”

(II Timóteo 2:15)

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gálatas 2 : 20)

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