“Aqui, todo mundo come ela, mas na hora de cuidar quando está doente, ninguém quer saber de nada”.
A. é uma garota doce e linda. Tem 16 anos e o mesmo número de passagens pela policia. Conheci ela nas ruas do centro de Vitória com a galera do Avalanche.
Nessa mesma noite nos contou um pouco sua história.
“Eu tenho família, tenho uma casa e tenho irmãos mais novos. Mas eu gosto da rua. Gosto da onde estou. Só volto de vez em quanto para ver meus irmãos. Grito o nome deles do lado de fora, abraço-os, vejo se estão bem e volto novamente pra rua”.
Logo se simpatizou com as meninas que estavam com a gente, o que acabou transformando a Cracolândia em um “clube da luluzinha”. Até chocolate, muito provavelmente roubado e vencido, foi compartilhado entre elas.
Depois de uma noite de troca de idéia com o pessoal da rua, fomos embora com um misto de alegria por tê-la conhecido e, ao mesmo tempo, uma tristeza no coração por não termos como ajudar-la efetivamente naquele momento.
Durante as outras sextas-feiras que íamos trocar idéia com o pessoal lá, sempre perguntávamos por ela. Raramente alguém sabia notícias. Ficamos bem incomodados com isso. Há uma semana atrás, J., uma garota de 13 anos, sobre quem pretendo escrever a respeito também, nos falou que A. “caiu. Foi pega fumando pedra”.
Era uma rotina a qual ela já estava acostumada, mas ficamos mais preocupados pelo fato de J. nos dizer que ela já deveria ter sido liberada pela polícia. Não é preciso dizer que ficamos a semana inteira pensando nela.
Mas nessa última sexta-feira, a reencontramos por volta da 00h00min perambulando pela Vila Rubim. Demos um grande abraço nela, mas ficou pouco tempo conosco, saiu e disse que voltaria logo. Estava indo comprar pedra.
Esperamos um bom tempo, mas ela não voltou. Resolvemos ir rever uma outra galera da rua e eu fui em direção a “boca” tentar achar J., o traficante com quem vinha mantendo um relacionamento. No meio do caminho a encontramos voltando da “boca” junto com mais um rapaz, na faixa dos 25 anos de idade. Ela veio na minha direção pra se despedir novamente e me dar um abraço. Gritou a galera que estava do outro lado da Avenida e foi em direção deles. Eu segui em frente pra ver se J. estava por lá. Dei uma olhada geral e nem sinal dele. Virei as costas e fui reencontrar a galera do Avalanche. Em questão de segundos, um camburão com cinco oficiais da Policia Militar chega fortemente armado pra dar geral em todo mundo da “boca”. Eu e um amigo abaixamos a cabeça e continuamos andando. Definitivamente, não estávamos querendo tomar coronhada de ninguém naquela noite.
Ao encontrar a galera, percebi que A. estava muito abatida. Logo vim saber que estava doente. Oramos por ela na rua mesmo e perguntamos se ela gostaria de ir com a gente pra base, pelo menos até se recuperar. Infelizmente, não aceitou nossa ajuda. O rapaz que estava com ela nos disse abertamente; “Aqui, todo mundo come ela, mas na hora de cuidar quando está doente, ninguém quer saber de nada”. Novamente nos despedimos com um abraço apertado e cheio de compaixão. Tenho certeza que ela sentiu vibe que estava rolando. E tenho certeza que foi importante pra ela se sentir amada naquele momento.
Sei que muitos que estão lendo esse texto, esperam uma grande história de redenção. Infelizmente terei de desapontá-los. Até então, aparentemente, não houve grandes mudanças na vida dela. Mas me propus a não deixar essas histórias morrerem comigo ou com as galera que sai a noite na rua a fim de conhecer um pouco mais de “um” próximo não tão próximo assim.
Mas preciso compartilhar algo que está na minha cabeça desde o primeiro dia em que conversamos com ela.
O que leva uma linda criança, com dois irmãos, uma mãe, todo um contexto e futuro pela frente, resolver sair de casa para morar nas ruas com desconhecidos, se tornar, de certa forma, uma escrava sexual, ou, sendo mais esdrúxulo, um aliviador de tensão de homens viciados em Crack, viciada e ainda sim se sentir MUITO melhor na rua do que em casa? Se sentir MUITO mais protegida nas ruas e nas mãos desses homens do que em casa?
È sabido de todas as pessoas que já tiveram o mínimo contato com viciados e moradores de rua, que em sua grande maioria, estes já foram membros ativos em igrejas evangélicas.
Nisso eu me pergunto. Que valores… que VIDA cristã é essa que estamos pregando, dizendo que vivemos, em que a rua é muito mais gratificante?
A urgência de levar o Reino é plena. Por que eu sei que se o Reino não for apresentado e vivido, outros reinos virão e tomarão conta da Vida e da MORTE de muita gente. E não falo aqui de “ganhar almas”. Eu falo de pessoas, com histórias maravilhosas e terríveis. Que amam, precisam ser amadas, que odeiam, que sentem dor, que adoecem e que morrem.
Preciso deixar claro que não quero ficar confrontando ninguém nisso. Esse é um confronto auto imposto. Sei que sempre serão pouquíssimas pessoas a realmente se preocupar e se dispor a servir essa gente. E o fato de estar nesse meio não me faz melhor em nada do que qualquer outra pessoa. Disso eu tenho plena consciência.
Mas é fato. Essa é uma responsabilidade nossa. Nossa!
A. é uma garota doce e linda. Tem 16 anos e o mesmo número de passagens pela policia. Conheci ela nas ruas do centro de Vitória com a galera do Avalanche.
Nessa mesma noite nos contou um pouco sua história.
“Eu tenho família, tenho uma casa e tenho irmãos mais novos. Mas eu gosto da rua. Gosto da onde estou. Só volto de vez em quanto para ver meus irmãos. Grito o nome deles do lado de fora, abraço-os, vejo se estão bem e volto novamente pra rua”.
Logo se simpatizou com as meninas que estavam com a gente, o que acabou transformando a Cracolândia em um “clube da luluzinha”. Até chocolate, muito provavelmente roubado e vencido, foi compartilhado entre elas.
Depois de uma noite de troca de idéia com o pessoal da rua, fomos embora com um misto de alegria por tê-la conhecido e, ao mesmo tempo, uma tristeza no coração por não termos como ajudar-la efetivamente naquele momento.
Durante as outras sextas-feiras que íamos trocar idéia com o pessoal lá, sempre perguntávamos por ela. Raramente alguém sabia notícias. Ficamos bem incomodados com isso. Há uma semana atrás, J., uma garota de 13 anos, sobre quem pretendo escrever a respeito também, nos falou que A. “caiu. Foi pega fumando pedra”.
Era uma rotina a qual ela já estava acostumada, mas ficamos mais preocupados pelo fato de J. nos dizer que ela já deveria ter sido liberada pela polícia. Não é preciso dizer que ficamos a semana inteira pensando nela.
Mas nessa última sexta-feira, a reencontramos por volta da 00h00min perambulando pela Vila Rubim. Demos um grande abraço nela, mas ficou pouco tempo conosco, saiu e disse que voltaria logo. Estava indo comprar pedra.
Esperamos um bom tempo, mas ela não voltou. Resolvemos ir rever uma outra galera da rua e eu fui em direção a “boca” tentar achar J., o traficante com quem vinha mantendo um relacionamento. No meio do caminho a encontramos voltando da “boca” junto com mais um rapaz, na faixa dos 25 anos de idade. Ela veio na minha direção pra se despedir novamente e me dar um abraço. Gritou a galera que estava do outro lado da Avenida e foi em direção deles. Eu segui em frente pra ver se J. estava por lá. Dei uma olhada geral e nem sinal dele. Virei as costas e fui reencontrar a galera do Avalanche. Em questão de segundos, um camburão com cinco oficiais da Policia Militar chega fortemente armado pra dar geral em todo mundo da “boca”. Eu e um amigo abaixamos a cabeça e continuamos andando. Definitivamente, não estávamos querendo tomar coronhada de ninguém naquela noite.
Ao encontrar a galera, percebi que A. estava muito abatida. Logo vim saber que estava doente. Oramos por ela na rua mesmo e perguntamos se ela gostaria de ir com a gente pra base, pelo menos até se recuperar. Infelizmente, não aceitou nossa ajuda. O rapaz que estava com ela nos disse abertamente; “Aqui, todo mundo come ela, mas na hora de cuidar quando está doente, ninguém quer saber de nada”. Novamente nos despedimos com um abraço apertado e cheio de compaixão. Tenho certeza que ela sentiu vibe que estava rolando. E tenho certeza que foi importante pra ela se sentir amada naquele momento.
Sei que muitos que estão lendo esse texto, esperam uma grande história de redenção. Infelizmente terei de desapontá-los. Até então, aparentemente, não houve grandes mudanças na vida dela. Mas me propus a não deixar essas histórias morrerem comigo ou com as galera que sai a noite na rua a fim de conhecer um pouco mais de “um” próximo não tão próximo assim.
Mas preciso compartilhar algo que está na minha cabeça desde o primeiro dia em que conversamos com ela.
O que leva uma linda criança, com dois irmãos, uma mãe, todo um contexto e futuro pela frente, resolver sair de casa para morar nas ruas com desconhecidos, se tornar, de certa forma, uma escrava sexual, ou, sendo mais esdrúxulo, um aliviador de tensão de homens viciados em Crack, viciada e ainda sim se sentir MUITO melhor na rua do que em casa? Se sentir MUITO mais protegida nas ruas e nas mãos desses homens do que em casa?
È sabido de todas as pessoas que já tiveram o mínimo contato com viciados e moradores de rua, que em sua grande maioria, estes já foram membros ativos em igrejas evangélicas.
Nisso eu me pergunto. Que valores… que VIDA cristã é essa que estamos pregando, dizendo que vivemos, em que a rua é muito mais gratificante?
A urgência de levar o Reino é plena. Por que eu sei que se o Reino não for apresentado e vivido, outros reinos virão e tomarão conta da Vida e da MORTE de muita gente. E não falo aqui de “ganhar almas”. Eu falo de pessoas, com histórias maravilhosas e terríveis. Que amam, precisam ser amadas, que odeiam, que sentem dor, que adoecem e que morrem.
Preciso deixar claro que não quero ficar confrontando ninguém nisso. Esse é um confronto auto imposto. Sei que sempre serão pouquíssimas pessoas a realmente se preocupar e se dispor a servir essa gente. E o fato de estar nesse meio não me faz melhor em nada do que qualquer outra pessoa. Disso eu tenho plena consciência.
Mas é fato. Essa é uma responsabilidade nossa. Nossa!
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